Desde que pressionara, canhestramente, as primeiras teclas daquela antiga máquina de escrever... Bem, podemos tentar outra coisa. Essas nostalgias não poderão salvá-lo agora. Reunidos na casa de um dos colegas, esses meninos de doze anos sofriam porque tinham de abrir mão do desenho animado da tarde para estudar e, pior, terminar ali mesmo o texto escrito, passado a limpo, datilografado. Trabalho em grupo – era também o título em maiúsculas, sublinhado com caneta vermelha: três traços. Você lê a enciclopédia e dita. Eu copio, faço o rascunho. Você resume. Eu recorto a revista. E você... – ele não tirava os olhos daquela máquina alta e escura, que já era antiga mesmo para essa época. “Eu posso datilografar.” Não sabia datilografar. Nunca havia feito aquilo. Geralmente era ele o encarregado do resumo. Ou da pesquisa. Esses caras me exploram mesmo, depois eu tenho que desenhar até a capa do trabalho enquanto eles disfarçam, fingindo-se muito ocupados com algum detalhe, que patifes! – palavras que usava em sonho, absorvidas de histórias em quadrinhos e seriados ordinários. Dessa vez ele tomou a frente, que a máquina o atraía além da curiosidade, parecia significar uma perspectiva formidável de escrever livros, como se a ferramenta fosse o mais importante, não o seu usuário. “Posso começar? Primeira parte...” Com doze anos, teclou pela primeira vez umas letras naquele engenho fascinante e feio, numa tarde qualquer, na casa desse colega que nunca mais encontraria durante o resto da vida. Era difícil rastrear os tipos, tão fora de ordem, cada letra, em sua posição, firmando-se pouco a pouco na memória. Uma a uma. Erros. Que fazer? Parecia impossível não errar, mesmo com todo, mas todo o cuidado. Não importa. Tec, tec, tect, plim! As palavras prontas, impressas no papel, eram mágicas. Essa imagem lhe voltou, quase num susto, ao ler a notícia sobre o novo escritor laureado. Jornal exposto em meio à confusão ruidosa da Rodoviária Velha, na rua de mão dupla dos Campos Elíseos. Estava com um amigo, haviam passado a noite com duas putas tão jovens quanto eles, e amanheciam com o dia após terem deixado as meninas num ponto próximo. O amigo também escrevia poemas, eram dois invencíveis defensores da literatura e da inteligência, e só toleravam essas mulheres vulgares por motivos óbvios. Ali estava o premiado do ano, o velho William Golding. Eles o admiravam pelos personagens dos meninos náufragos, claro que se sentiam como alguns deles. A foto de Golding não parecia dizer-lhes muito, passava-lhes alguma tristeza mesclada àquela manhã cansada, algo deprimente, com a impressão de uns corpos femininos na memória de um prazer extinto, dando lugar a sinais de arrependimento (o que sempre acontecia), inclusive lamentando o dinheiro desperdiçado com aquilo. Mas lembrava-se com delícia, com uma forte memória física, dessa sua menina, uma moreninha baixa e sorridente, com umas botinhas que manteve calçadas até o último estágio de sua nudez – enquanto a de seu amigo usava umas sandálias altas, verdes, que ele, muito entendido, julgou de péssimo gosto. Só isso o fazia sentir-se ligeiramente privilegiado com relação ao outro, em segredo, mas de fato. Mesmo enquanto saboreava em silêncio essas pequenas vantagens, fazendo-se um vencedor entre picuinhas, supunha que não poderia haver melhor exemplo de competição intantiloide, pobre e mesquinha, compensando ridículas perdas suas, essas sim, mais profundas. Imaginou suas memórias, muito tempo à frente, velhinho, sem poder se levantar da cadeira de rodas, mas sorrindo às câmeras, vejam que lição de vida. Seu último livro, contando tudo, chamava-se: Eu, datilógrafo. Título-plágio do Eu, robô, de Asimov, mas significando, modestamente, que um escritor de seu porte, após tanto viver e produzir obras monumentais, considerava-se apenas... um datilógrafo. Mas claro que, ao melhor estilo de Asimov, tratava-se, no momento, de uma projeção fundamentada nas possibilidades do presente, uma visão de futuro. Datilografia – no futuro. Bem, no momento era preciso respeitar o romancista laureado, era obrigatório, quase sagrado, precisavam conhecer detalhes de sua biografia e de seus trabalhos menores e... Ao mesmo tempo, aquela figura na foto inspirava algo pitoresco, quase cômico, pois ele se parecia com muitos de seus professores barbudos, um de Química, outro de Física, ah sim, aquele de Geografia, lembra? Enfim... E parecia silencioso, tranquilo, um simulacro de Darwin retirando-se após a divulgação, com o irrefreável estopim aceso, de sua pequena bomba. Mas não se tratava bem de uma bomba, Golding era principalmente um acadêmico cuidadoso. Portanto, esses dois poetas estreantes consideravam, cada um por sua conta, algo sobre os caminhos que poderiam levá-los um dia à Suécia. Ser como Golding? Como Garcia Márquez? Beckett? Era uma variedade tão grande de biografias, personalidades e obras distintas que não era possível encontrar um padrão. Desse jeito, nunca iriam chegar ao Nobel, embora sempre se dissessem que esse aí, do jornal de hoje, o grande premiado, foi um dia desconhecido e jovem como eles, afinal, por que não um de nós, não é mesmo? Mas (ai, ai...) eles ali, naquela rodoviária imunda, de chão escuro e ar engordurado, sem projetos definidos, passando a noite com putinhas pobres, enquanto esses ilustres literatos estudavam sem parar... “Sai da frente, olha o pacote!”, gritou o carregador empurrando um carrinho de duas rodas, mal engraxado, nem de longe desconfiando que esbarrava em dois potenciais da cultura literária ocidental, mas que bronco. Pediram café. Pão de queijo. Compraram o jornal com moedinhas. Em meio a tudo aquilo, esse confiante poeta ainda se lembrava com agradável prazer da gata de botas, sentadinha sobre seu pau duro, dando-lhe as coxas e a bundinha boa a serem tocadas, apalpadas, apertadas, tudo isso muito, muito gostosamente. Sorveu de olhos fechados outro gole do café. Todos os ruídos o alcançavam. Todos os sonhos. Quando fosse receber o Nobel, haveria de chocar a todos com a verdade de seu surpreendente discurso, que faria deslocar a notícia dos suplementos literários para as primeiras páginas: Senhores, não tenho nenhuma vergonha de declarar aqui, publicamente, que a mulher que mais me deu prazer na vida não gostava de livros.
Perce Polegatto. Autor de A conspiração dos felizes, A seta de Verena, Lisette Maris em seu endereço de inverno e Os últimos dias de agosto, romance recentemente reeditado pela All Print Editora, São Paulo, 2008.
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