Eu conto, que alguém me contou, que o pai contava, que antigamente para se extrair dente era necessário ter um bom cavalo de corrida. Daí vocês podem concluir: desde outros tempos, tratar de dentes não é pra quem quer. É pra quem pode! Bem, um dia uma mula resolveu ir ao dentista. Sentou-se tranquilamente, esperando ser atendida, enquanto o velho dentista ia ao estábulo escolher o melhor alazão que possuía.
Alguns minutos depois, de volta à sala, o “tiradentes” trazia consigo uns metros de corda enrolados no punho. Pediu a mula para fechar os olhos. Como era muito curiosa, ela não obedeceu. Assim viu o dentista pegar rapidamente uma arma que estava sobre uma cadeira. Levou um susto. Ele percebeu seus olhos quase saindo das órbitas e tranqüilizou-a. - Calma! Feche os olhos! Não vai doer! Disse isto enfiando rapidamente a arma no cós do uniforme. Ela obedeceu. Sentiu que o dentista amarrava seu dente com a corda, ao mesmo tempo em que recomendava, com voz carregada de paciência: - Não abra os olhos, senhora! A mula assim o fez (mesmo porque tinha pavor de armas) ao mesmo tempo em que ouviu os passos do dentista na direção da porta. Logo em seguida ouviu o relinchar de um cavalo. Sentiu que a corda começava a apertar o seu dente e resolveu afrouxá-la, abrindo o laço. Quando foi passando o laço pela cabeça, ouviu um disparo de arma de fogo. No mesmo instante, percebeu que algo se desprendia do seu corpo. De imediato, não saberia dizer o que aconteceu, mas quando ouviu o galope de um cavalo em disparada na direção das montanhas, seu corpo foi invadido por uma convulsão. Assustado com o disparo, o animal, a 2947 km/h, atravessou vales, veredas, riachos e rios. E por fim chegou à beira do mar. (Nessa altura, a cabeça, de tanto rolar, já tinha virado uma bola). O alazão ficou mais apavorado ainda ao ver tanta água. Parou. Coração acelerado. De repente criou asas, e coragem, e voou sobre as águas. Só parou de voar quando chegou ao Iraque.
A cabeça da mula subitamente se desprendeu da corda, rolou pelas ruas de Bagdá, arrasadas pela guerra, e foi explodir na porta de uma mesquita. (“Felizmente ninguém saiu ferido”). No mesmo instante em que os estilhaços estavam sendo lançados pelos ares (a la Spielberg), ainda na cadeira do dentista, a mula esperneava revoltada. - Agora sou uma mula-sem-cabeça, é? Pois bem! Vocês me pagam! Vou assombrar todo mundo!
Rubo Medina. Professor, escreve quase que compulsivamente, mas começou publicar a partir de 2005, quando os blogs surgiram com força total, tornando assim viável a oportunidade de mostrar os seus trabalhos.